martes, 5 de junio de 2012

O conto da meia-noite


Pouco mais de meia-noite:

(telefone toca)

- Alô?
(silêncio)
- Alô?
(silêncio)
- Alô??!
(silêncio)
- Tem alguém ai???!!!
(silêncio)
- Malditos enganos! – e bato o telefone.

(telefone toca de novo)

- Oi??
(silêncio)
- Quem é o engraçadinho, hein?!
(silêncio)
- Infeliz!! – irritada, bato o telefone.

(telefone toca mais uma vez)

- Escuta aqui, vá perturbar sua mãe, está me ouvindo? Tenho mais o que fazer. Estou cansada! Trabalhei o dia todo e definitivamente não tenho tempo pra moleque que não tem mais o que fazer, e fica passando trote pra minha casa à uma hora dessas! E não volte a ligar!
(suspiros)
- Não vai falar nada não, é?!
(silêncio)
- Tom? Tom é você? Eu sei que é você. Só pode ser você! É sempre você que me liga nas horas importunas, me enchendo de perguntas, as quais eu não tenho a menor pretensão de responder. É sempre você quem me irrita com essa sua fala mansa e seus questionamentos infindáveis. É sempre você! Não sei por que ainda insiste nisso. Eu não já deixei bem claro que não quero mais te ouvir? Eu não já te disse que essa maldita história acabou? Eu não já coloquei um ponto final nisso tudo?! Cacete! Não volte a me ligar. Eu não quero ouvir sua voz!
- Mas até agora só quem falou foi você...

Tomei um choque ao ouvir suas primeiras palavras depois de um monólogo que parecia interminável.

(silêncio)
- Por que tanta raiva? O que foi que eu te fiz? Eu gosto de ouvir sua voz, mesmo brava. Gosto quando você fica nervosa e não sabe o que fazer. Quando suas mãos tremem e você tenta esconder sua ansiedade. E gosto mais ainda quando você fica sem jeito diante de algo que eu disse ou fiz. Ainda não consigo entender o porquê de tanta raiva de mim. Não me negue o direito de saber. Há quatro noites que não durmo... Há quatro noites que a chuva cai pesada sobre meu corpo e me sinto como se navalhas me ferissem aos poucos. Se for pra deixar morrer, que seja de uma vez. Não me torture. Não mais. Você se disse cansada, certo? Agora imagine o meu estado... Só tenho pensado em você nesses últimos dias. Somente o seu nome me vem à cabeça o tempo todo. Se hoje eu levantei da cama, foi porque pensei que precisava ouvir sua voz a qualquer custo. E agora estou aqui...
(silêncio)
- Um pouco antes de tudo terminar, estive deitado em nosso banco... Quero dizer, era nosso banco, não era? Bem, pra mim era... E ainda é. Passei a tarde toda olhando o mar. Lembra de quando a gente sentava e ficava admirando a rebentação, observando a ponte totalmente iluminada pelos carros à noite, ouvindo música, discutindo assuntos da faculdade, relacionamentos, complicações? Consegue se lembrar que costumávamos ser melhores amigos? Queria que você me dissesse onde foi que tudo isso se perdeu... Se é que você sabe. Você consegue imaginar a falta que me faz ouvir sua voz todas as noites antes de pegar no sono? Eu me acostumei a isso... Você não? É que você não se dá conta da dimensão do que perdemos...
(suspiro)
- Esse seu silêncio não me surpreende. Quantas perguntas eu te fiz e ficaram sem respostas? Você me acusa de te ligar em horários importunos. Mas quais eram os horários em que você podia falar comigo? Sempre atarefada com os afazeres da faculdade, com os problemas de amigos, com os sentimentos alheios não correspondidos... E ai eu te pergunto: Quando é que sobrou tempo pra mim? Talvez nos horários importunos que você citou. Mas realmente é pedir muito um pouquinho da atenção da única pessoa pela qual ansiei ouvir a voz o dia todo. É... Agora percebo o quão injusto fui...
- Mas você não foi injusto...
- Fui sim: comigo. Fui injusto comigo por não me permitir viver sem você e agora estou aprendendo da pior maneira possível... Sabe minha mãe sempre me disse que as pessoas vêm e vão o tempo todo. Mas eu podia jurar que algumas ficariam. E você não faz idéia de quantas vezes eu desejei que você fosse umas delas. E agora eu vejo que não. Vejo que você está indo como outra qualquer. E eu não te culpo por isso. E tento não me culpar também. Você está fazendo o que eu deveria ter feito quando você me alertou que não poderia ser pra mim tudo o que eu era pra você: aprendendo a viver sem mim. Ou será que você sempre soube?
- Você não me conhece...
- Tenho certeza que não. A Anne que eu conheci estaria segurando o choro desde o momento em que eu comecei a falar, impaciente por saber que tudo o que estou dizendo é verdade. A Anne que eu conheci estaria doida pra dizer que eu estou errado no que digo. Essa Anne estaria inventando mil desculpas pra tentar me convencer do meu erro, mesmo sabendo que eu não acreditaria em nada do que ela dissesse. Essa Anne ai... Essa que eu conheci, estaria enrolando o cabelo a ponto de criar um nó e morrendo de vontade de ir ao banheiro... Porque a minha Anne sentia vontade de ir ao banheiro quando ficava nervosa. Minha Anne já teria levantado e sentado no sofá um milhão de vezes enquanto eu falava, mesmo sem pronunciar um som qualquer, um suspiro que fosse... Porque minha Anne não consegue ficar parada no mesmo lugar por muito tempo, muito menos ouvindo coisas que a contrariam. A minha Anne, Anne, pensaria mil vezes antes de dizer qualquer coisa que pudesse me ferir dessa maneira...
- Chega! Por que está me torturando dessa maneira?
- Estou tentando entender... Tentando entender quando foi que deixamos a chuva, que nos uniu naquele dia, nos distanciar dessa maneira agora... O que a chuva representa pra você, Anne?
- Nada. Gotas d’água talvez.
- É uma pena. Pra mim a chuva vinha como um sinal. Um sinal de que, em poucos instantes, tudo estaria bem de novo. Um sinal de que eu poderia ir até aquele que é o nosso lugar e viver aquele nosso momento quantas vezes fossem necessárias. Você não me engana com esse discurso. Alguma parte dessa nova Anne deve abrigar a antiga que eu tanto amei...
(silêncio)
(silêncio)
(suspiros)
- Não acredito que disse isso. Eu tinha prometido a mim mesmo que nunca mais diria essa palavra, e, no entanto... É mais forte que eu. Nisso eu meio que te admiro, sabe? Você consegue parecer um cubo de gelo quando quer. Seu azar é que te conheço... Até mesmo pelo telefone. Sei que agora você está torcendo pra que caia a ligação pra nunca mais ter que ouvir a minha voz, ao mesmo tempo em que não consegue bater o telefone na minha cara. Sei que agora você está sentada, balançando as pernas freneticamente sem saber o que fazer nem o que pensar. Sei que você está arrancando pele dos lábios e roendo sua unha de nervoso. Eu sei que sim. E sei que agora você percebeu que não existe nova Anne. Existe um projeto de Anne que teima em existir quando a Anne que eu conheci teima em não sumir. Você sabe que essa Anne ai, essa ai que você inventou, não passa de uma camuflagem para quando você estiver pensando em mim. Vai me dizer agora que eu sumi dos seus pensamentos? Você deve estar pensando “quem ele pensa que é? O último dos homens?” (risos). Não, sua boba. Eu sou um homem que te amou muito e te conhece como ninguém. Cada curva do seu corpo, cada movimento, cada gesto...
- Chega... Já chega, Tom. Está tarde... Amanhã tenho que acordar cedo e...
- Tudo bem. De tanto ouvir isso, sou capaz de montar seus horários de cor.
(silêncio)
- Por que você diz isso? Digo, pra que tudo isso?
- Posso só cantar uma música antes de desligar?
- Você vai desligar? Você nunca desliga...
- Sim, dessa vez vou ser eu a ouvir você dormir e desligar o telefone. Posso?
- Como quiser...

            E então ele cantou nossa música, do começo ao fim, sem errar um verso que fosse. E, em seguida, desligou o telefone com um simples adeus.
Depois de me recompor, notei que a chuva tinha recomeçado e, na mesma hora, pensei em lhe enviar uma mensagem. Pensei em dizer a ele o quanto eu ainda o amava e o quanto eu pensava em nós quando a chuva caía. Pensei em dizer mil coisas. Pensei em contar que escrevi inúmeras poesias pra ele, e que pretendia fazer um livro com elas e entregar-lhe. Pensei em como iria organizar tudo isso em uma mensagem discreta, de forma que eu não me expusesse muito afinal, orgulho em primeiro lugar. Pensei muito. Quando peguei o celular já havia uma mensagem dele que dizia:

Querida Anne, não sei se notou, mas começou a chover de novo... Não se preocupe, não serei mais importuno. Só queria dizer que, a chuva que antes me cortava como navalha, agora vai lavar minha alma. Finalmente estou livre. Obrigado por ter permitido que eu me libertasse. Espero que possamos ser amigos algum dia. Com carinho, Tom.

            Só sei dizer que, depois daquela mensagem, nenhuma noite que se seguiu foi igual às anteriores. Liguei para o Tom milhares de vezes, mas ele não me atendeu. E a ultima coisa que sei dele é que, quando perguntado sobre a chuva, ele diz:

“Ah, a chuva? Continua caindo como sempre...”. 


Indicado por uma amiga, e tem tudo a ver com a moral da história...

http://www.wimp.com/couldhave/

May (:

domingo, 3 de junio de 2012

Amor, meu grande amor..



Se não fosse esse nosso
imenso e difícil amor.
Não fosse esse imenso abismo entre nós,
eu te convidaria a dançar
o meu último bolero.

Antonio Bivar


Engraçado, não? 

Mudam-se as pessoas, mudam-se os sentimentos, muda-se a intensidade do desejo, mas o final... ahhhh, o final não muda nunca. E eu sei bem o porquê... É que, apesar de mudarem os "vocês", o "eu" continua sendo o mesmo. É isso.

Então, vim aqui me despedir de você. Desse novo você, que agora lê o adeus do velho eu. Isso mesmo. Não me entenda mal... É que eu não quero que a gente se acostume a dizer que se ama, sem sentir o que é isso. Eu sei que é estranho, mas eu quero que você olhe aquele banco com o mesmo olhar de quem vê o mar pela primeira vez. Não com o olhar de quem se despede, ou de quem guarda, sim, recordações, mas que não gostaria. Consegue entender? 

É que eu quero que você me ligue, mas somente quando tiver vontade, quando sentir saudades: não por necessidade de informar onde está, o que está fazendo, aonde vai, com quem vai, nem muito menos pra me cobrar tais informações. Quero que você me diga que sentiu saudades, sim, mas só se tiver sentido mesmo: não por que as regras mandam, e um "namorado" que não diz que sente saudades da namorada, um minuto depois de estarem separados, não a ama de verdade. Eu quero que você queira me ver, a qualquer minuto do seu dia: não somente quando chega o fim de semana, e você se sentirá obrigado a estar comigo. Eu quero mesmo é que você, ao me vir, me abrace longamente, e eu possa sentir no pé do meu ouvido sua respiração ofegante, como quando fazemos amor. E, mais que isso, eu quero que façamos sempre amor, mesmo que nosso "sempre" dure apenas um dia.

E quero, principalmente, que você não me ligue, não me procure, não me sufoque, não me cobre respostas que eu não sei te dar e não me desaponte. E quero que você não esteja disponível sempre que eu ligar, ou não aceite quaisquer desculpas que eu der, depois de tanto tempo sem dar sinal de vida. Quero que você esbraveje, sem gritar, e puxe minha orelha, sem me repreender. 

Quero sim que você sinta ciúmes, mas que não me culpe por isso. Eu não faço por mal e, se fizer, não faça o mesmo: seja você. Eu quero, querido, que você viva, cresça e não dependa de mim pra nada. Eu não vou mudar. Eu não sou capaz de te mudar e, por mais que eu queira, não sou capaz de passar uma borracha em nossos passados, muito menos curar seu coração de todas as feridas. Era essa sua intenção? Não era a minha.

Eu quero, também, que você tente me desculpar por todas as vezes que você se sentiu mal em relação à mim. Confesso, algumas vezes eu fiz por querer, mas na grande maioria, eu só queria mesmo era um espaço pra fazer crescer, de uma vez, esse novo eu que eu tanto anseio.

Me lembro de ter prometido à você, que o ensinaria a ler poesias. Mas eu sei que você não precisa aprender nada: você as sabe de cor. Se não as poesias mais conceituadas, as mais sublimes, como as que dizem respeito às curvas do meu corpo. Ou àquelas, as quais certa vez recitou para mim em uma das centenas de longas conversas que tivemos, e que sempre invadiram madrugada a dentro. Ta aí outra coisa que não quero perder: nossas inesquecíveis conversas. Não quero que nossas risadas se transformem em acusações sem sentido, que nossas palavras se transformem em navalhas.

Não quero que nossos olhares busquem eternamente ir ao encontro um do outro, mas que venham de encontro sempre que puderem; sempre que quiserem, se assim desejarem. 

E não quero NUNCA, JAMAIS, perder meu melhor amigo, aquele em quem confio, aquele que eu verdadeiramente amo desde que conheci. Se hoje eu digo que te amo, que desejo sua felicidade, seja com quem for, como for, e afirmo sempre que você pode confiar em mim pra tudo, que pode me dizer o que quiser, isso não quer dizer que eu não o ame "daquele jeito". Quer dizer, apenas, que eu te amo tanto, mas tanto, que sou capaz de abrir mão de tudo (o que eu gostaria, é claro) só pra ver um sorriso no seu rosto. Só pra ouvir você me dizer que não esperava uma atitude como essas. Pra ouvir você me dizer: eu te amo. Sem "mais", sem "também", sem "você não me ama", sem "você me esqueceu". Só "eu te amo". Sem perspectivas, sem decepções, sem reticências. 

E já que é pra acabar de vez com as reticências, que tal colocar um ponto nessa história. Não, não.. Não um ponto final, mas eu acho que "ponto-parágrafo" seria uma boa, não acha? Melhor ainda se depois do ponto, a gente puder virar a página e iniciar um novo parágrafo. Se você concordar... eu já topei! 

E pra terminar, amigo, eu quero te dizer que sinto sua falta todos os dias, penso em você sempre que ouço John Mayer, ou estou em aula de literatura brasileira... ou simplesmente quando vejo a chuva cair. Quero te dizer, que todos os dias eu tenho uma vontade louca de te ligar do nada e dizer que senti sua falta. Que tenho vontade de te mandar músicas que eu penso combinar com nós dois e, ao mesmo tempo, matar o Armandinho por ter inventado aquela maldita música. Mas sabe do que mais? Eu guardo todas essas vontades pra mim, esperando que um dia você também as tenha. E, acredite você ou não, mesmo quando eu "estou de ovo" virado, a melhor coisa do meu dia é ouvir sua voz e, melhor ainda, ouvir você dormir...

May :)